
Nos textos bíblicos, Yahweh é frequentemente descrito como uma divindade associada às nuvens, aos céus e aos fenômenos atmosféricos. Essa imagem teológica aparece repetidamente nas Escrituras, revelando um padrão simbólico que aproxima Yahweh de arquétipos divinos comuns ao antigo Oriente Próximo, como Baal havia sido na antiga mitologia cananeia (KTU 1.3, III), a validação mitológica da santidade do Tabernáculo do deserto e do Templo de Jerusalém era o mito de Yahweh descendo em uma nuvem no santuário (1Rs 8:10-11). O livro do Êxodo, por exemplo, apresenta a presença divina manifestando-se por meio de uma nuvem sobre o tabernáculo:
“Porquanto a nuvem do Senhor estava de dia sobre o tabernáculo, e o fogo estava de noite sobre ele, perante os olhos de toda a casa de Israel, em todas as suas jornadas.” (Êxodo 40:38)
Essa associação entre divindade e fenômenos celestes também aparece em textos proféticos e poéticos. Em Isaías, Yahweh é retratado como aquele que cavalga sobre uma nuvem ao dirigir-se ao Egito:
Profecia acerca do Egito. Eis que o Senhor vem cavalgando numa nuvem ligeira, e entra no Egito; e os ídolos do Egito estremecerão diante dele, e o coração dos egípcios se derreterá dentro de si. (Isaías 19:1)
Já no cântico de Deuteronômio, o Deus de Israel é descrito como aquele que cavalga os céus e as nuvens em majestade. Essa linguagem reaparece nos Salmos, onde Yahweh é apresentado como aquele que transforma as nuvens em seu carro e caminha sobre as asas do vento, reforçando sua dimensão cósmica e soberana:
Não há ninguém como o Deus de Jesurum, que cavalga os céus para ajudá-lo, e cavalga as nuvens em sua majestade! (Deuteronômio 33:26)
Àquele que vai montado sobre os céus dos céus, que existiam desde a antiguidade; eis que envia a sua voz, dá um brado veemente. (Salmos 68:33)
Põe nas águas as vigas das suas câmaras; faz das nuvens o seu carro, anda sobre as asas do vento. (Salmos 104:3)
Nos textos de Ugarit, Baal é a divindade das tempestades, da fertilidade e da realeza divina. Ele governa os céus, controla as chuvas e representa a vitória sobre forças caóticas. A proximidade simbólica entre Baal e Yahweh sugere que a teologia israelita dialogava com tradições religiosas mais antigas do Levante:
[8] E Kothar Wa-Hasis diz: Em verdade, eu te digo, ó Príncipe Baal, eu repito, ó cavaleiro das nuvens [o que cavalga sobre as nuvens]: [9] Agora o teu inimigo, Baal, agora o teu inimigo podes ferir, agora podes derrotar teu inimigo. [10] Que tu tomes a tua realeza eterna, Seu domínio eterno. (KTU 1.2, IV, 8-10)
Uma leitura cuidadosa das passagens referentes à manifestação de Yahweh no santuário mostra que os substantivos “nuvem” e “glória” são usados de forma intercambiável, e que a “nuvem” foi, sem dúvida, considerada como a forma visível assumida pela “glória” de Yahweh quando desejou indicar sua presença em sua morada terrena, o santuário. Visto que se acreditava que Yahweh “habitava” no Tabernáculo do deserto, um dos nomes dessa tenda-santuário era mishkan, “morada”, “residência”, “habitação”. De acordo com a tradição eloísta mais antiga, Yahweh apenas fazia aparições temporárias na Tenda do Encontro; ele era uma divindade visitante cujo aparecimento ou saída da Tenda era usado para fins oraculares (Ex 33:9; Nm 12:4-10).
O termo técnico para a aparição visível de Javé no santuário ou em qualquer outro lugar escolhido por ele é o verbo shakhan, que significa habitar ou permanecer. Na grande e famosa teofania do Sinai (Êxodo 24:16), “a glória de Yahweh habitava (shakhan) no deserto do Sinai”; e, subsequentemente, ele ordenou a Moisés que construísse para um santuário para que ele pudesse habitar entre os Filhos de Israel (Êxodo 25:8).
Após a conquista de Canaã, Yahweh assumiu sua morada no Monte Sião e é referido por Isaías (8:18) como “Yahweh Zeboath que habita no monte Sião”. Sião é a montanha sagrada de Yahweh: “Eu sou o Senhor teu Deus, habitando (shokhen) em Sião, minha montanha sagrada”, diz Joel (4:17). Nos Salmos (135:21), esse conceito torna-se a base para um epíteto divino: “Abençoado por Javé desde Sião, morador de Jerusalém Aleluia.”
Baal, na religião cananeia, também possuía uma montanha sagrada e um templo-palácio que simbolizavam sua realeza divina. Nos textos ugaríticos, Baal é apresentado como o soberano que habita o Monte Zafon, sua montanha sagrada e centro de seu domínio cósmico, sendo chamado de “Senhor do Monte Zafon” (KTU 1.3, III, 25-30).
Referências Bibliográficas
SMITH, Mark S. The Ugaritic Baal Cycle: introduction with text, translation and commentary of KTU 1.1–1.2. Leiden; New York; Köln: E. J. Brill, 1994. v. 1.
WYATT, Nicolas. Religious texts from Ugarit: the words of Ilimilku and his colleagues. 2. ed. Sheffield: Sheffield Academic Press, 2002.

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