
O livro de Ezequiel está longe de ser um bloco literário simples, homogêneo e produzido de uma só vez pela mão de um único autor individual. A tradição situa a atividade do profeta Ezequiel no exílio babilônico, sobretudo entre 593 e 571 a.C., datas que o próprio livro frequentemente usa como moldura cronológica para vários oráculos; porém, a forma final do livro indica trabalho editorial posterior, com organização, expansão e releitura de materiais proféticos ao longo do tempo. No plano manuscritológico, os testemunhos completos em hebraico preservados são medievais, sobretudo na tradição massorética, mas o livro também é atestado em fragmentos de Qumran e Masada, além da tradução grega antiga, a Septuaginta, cuja forma mais importante para Ezequiel é preservada em testemunhas como o Papyrus 967. Esses dados mostram que não existe apenas “uma versão” textual de Ezequiel na Antiguidade, mas ao menos duas grandes formas literárias em circulação: uma forma hebraica mais próxima do Texto Massorético, refletida em boa medida pelos fragmentos de Qumran e Masada, e uma forma grega mais curta em vários trechos, preservada na tradição pré-hexaplar da Septuaginta, especialmente em P967. Parte da discussão acadêmica gira justamente em torno de saber se a Septuaginta representa uma edição hebraica mais antiga e mais breve, posteriormente ampliada no ramo massorético, ou se a forma grega abreviada resulta de revisão, omissão ou reconfiguração no processo tradutório; hoje, muitos especialistas reconhecem que Ezequiel circulou com mais de uma edição literária relevante, embora os manuscritos do deserto da Judeia tendam, no geral, a aproximar-se mais do tipo proto-massorético do que da edição grega curta. Entre as divergências mais debatidas estão a ordem dos capítulos 36 a 39 na tradição grega antiga, diferenças de extensão em blocos oraculares, além de variantes lexicais, sintáticas e expansões ou abreviações que afetam a interpretação de passagens-chave, inclusive nos oráculos contra as nações e nas visões restauracionistas. Assim, a crítica literária e textual de Ezequiel aponta para um livro com núcleo exílico antigo, mas transmitido em estágios distintos de redação e edição, cujo processo de formação continuou a deixar marcas visíveis na comparação entre o Texto Massorético, os fragmentos de Qumran e Masada e a Septuaginta.
A profecia registrada em Ezequiel 29:17–20 constitui um dos exemplos mais claros de tensão entre expectativa profética e realidade histórica no Antigo Testamento. O texto afirma que Nabucodonosor, após não obter recompensa na campanha contra Tiro, receberia o Egito como compensação por seu esforço militar. Essa formulação não é simbólica nem aberta, mas concreta e verificável, o que permite uma análise rigorosa à luz das evidências históricas. Quando essa verificação é feita, observa-se um descompasso significativo entre o enunciado do oráculo e os dados disponíveis sobre a atuação do rei babilônico.
As fontes extrabíblicas indicam que Nabucodonosor realizou uma campanha contra o Egito por volta de 568 a 567 a.C., durante o reinado do faraó Amasis II. Esse evento é mencionado em uma crônica babilônica fragmentária, conhecida como BM 33041, que registra uma expedição militar no trigésimo sétimo ano do reinado do monarca. Contudo, não há evidência de que essa campanha tenha resultado em conquista territorial duradoura, anexação administrativa ou controle político do Egito por parte da Babilônia. O Egito permaneceu como uma entidade política independente, o que contrasta com a linguagem do texto profético, que sugere uma entrega efetiva do território como pagamento.
O pano de fundo indispensável para essa discussão está em Ezequiel 26, onde aparece o oráculo inicial contra Tiro e onde a expectativa profética é formulada de maneira explícita. Nesse capítulo, Javé anuncia juízo contra a cidade fenícia e nomeia diretamente Nabucodonosor, rei da Babilônia, como instrumento dessa destruição. O texto afirma que ele cercaria Tiro, derrubaria seus muros, destruiria suas torres, pisaria suas ruas com cavalos, mataria sua população à espada e transformaria a cidade em ruína permanente. Em outras palavras, é em Ezequiel 26 que nasce a previsão concreta de que Nabucodonosor conquistaria Tiro de modo decisivo, reduzindo-a a um estado de devastação irreversível. O problema histórico é que esse cenário não se realizou nos termos descritos, e é justamente por isso que Ezequiel 29 se torna tão importante, pois funciona como um texto posterior que tenta responder teologicamente ao fracasso dessa expectativa inicial.
O próprio texto de Ezequiel reconhece implicitamente a frustração do resultado esperado em Tiro. Ao afirmar que Nabucodonosor não recebeu “salário” por sua campanha, o oráculo introduz a necessidade de compensação, projetando o Egito como recompensa futura. Esse movimento indica que o texto não está apenas antecipando eventos, mas reagindo a eles. A profecia, nesse contexto, assume um caráter interpretativo, no qual a teologia é ajustada para preservar a coerência do discurso diante de um cenário que não correspondeu à expectativa inicial. Trata-se de um padrão recorrente na literatura profética, no qual o fracasso de uma previsão não leva à sua eliminação, mas à sua reelaboração.
Do ponto de vista da crítica redacional, esse fenômeno sugere que o livro de Ezequiel foi composto em múltiplas etapas. Há um núcleo de tradições associadas ao profeta exílico, ativo no século VI a.C., mas o texto em sua forma final reflete a atuação de escribas e círculos editoriais posteriores. Esses agentes preservaram os oráculos, organizaram o material e, em alguns casos, acrescentaram releituras que dialogam com eventos já conhecidos. A diferença cronológica entre Ezequiel 26, associado ao período inicial das campanhas babilônicas, e Ezequiel 29:17–20, explicitamente datado décadas depois, reforça essa hipótese de desenvolvimento textual ao longo do tempo.
Diante desse quadro, a conclusão historicamente fundamentada é que Nabucodonosor não conquistou o Egito nos termos descritos em Ezequiel 29, nem recebeu o território como recompensa efetiva. A campanha ocorreu, mas seus resultados foram limitados e não correspondem à formulação do oráculo. Isso não invalida o texto como fonte histórica, mas redefine sua natureza. Ezequiel 29 não deve ser lido como uma previsão cumprida, mas como um testemunho da dinâmica entre expectativa profética, realidade histórica e reelaboração teológica dentro da tradição bíblica.
Referências Bibliográficas
BLOCK, Daniel I. The Book of Ezekiel: Chapters 25–48. Grand Rapids: Eerdmans, 1998.
GREENBERG, Moshe. Ezekiel 21–37: A New Translation with Introduction and Commentary. New York: Doubleday, 1997.
ZIMMERLI, Walther. Ezekiel 2: A Commentary on the Book of the Prophet Ezekiel, Chapters 25–48. Philadelphia: Fortress Press, 1983.
LIVERANI, Mario. The Ancient Near East: History, Society and Economy. London: Routledge, 2014.

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