
Em meu vídeo postado no canal Professor Carlos Alexandre Costa, apresento evidências exegéticas e arqueológicas de que a leitura mais antiga do Dt 32:8–9 demonstra um contexto de leitura politeísta. A discussão se inicia a partir do vídeo do teólogo Lucas Banzoli, onde o mesmo busca responder ao historiador Henrique Caldeira, pressupondo que o mesmo erra ao trazer a questão politeísta de Deuteronômio. Entretanto, ao realizar a sua apologética, Lucas Banzoli faz a leitura do texto massorético ao invés da leitura de Deuteronômio de Qumran.
O ponto técnico que organiza toda a discussão é simples, mas devastador para leituras apologéticas: A versão de Dt 32:8–9 de Qumran possui variantes textuais que apontam para uma leitura politeísta, e a leitura do Texto Massorético (Séculos VI a X d.C.) não é, nem de longe, a forma mais antiga disponível. Quando o debate é “o que o texto dizia”, a pergunta não pode começar pelo manuscrito mais tardio e mais padronizado; ela precisa começar onde a evidência é mais antiga e mais próxima do processo de transmissão — e é aqui que entram os Manuscritos do Mar Morto.
No vídeo, a minha impugnação ao Lucas Banzoli se apoia precisamente nesse critério: o manuscrito mais antigo relevante para Dt 32:8–9, preservado em Qumran, aponta para a leitura “filhos de Deus”, e não para “filhos de Israel” (massorético). Esse detalhe muda a arquitetura teológica do verso. Em vez de uma distribuição “segundo Israel”, o texto descreve um cenário no qual o Altíssimo (ʿElyôn) fixa fronteiras e distribui as nações segundo o número dos “filhos de Deus” — seres celestiais/divinos — enquanto Yahweh recebe Israel como sua porção (Dt 32:9). O efeito é imediato: o texto pressupõe um mundo povoado por múltiplas entidades divinas, estruturado em hierarquia, no qual Israel é o lote específico de Yahweh.
É precisamente isso que sustento, tecnicamente, a leitura “politeísta” (ou, se preferir a formulação mais controlada, um horizonte henoteísta/monolátrico com conselho divino e distribuição das nações). A redação não está apenas “citando deuses para negar deuses”. Ela descreve um arranjo cósmico em que as nações estão sob administração de seres divinos e Israel sob Yahweh. Em outras palavras: a Bíblia hebraica, em certos estratos e tradições, não nasce como monoteísmo filosófico absoluto, mas como uma teologia em disputa, em processo, marcada por camadas, reelaborações e padronizações posteriores.
A minha crítica ao Lucas Banzoli é metodológica e documental: ao apresentar o massorético como base para invalidar a leitura defendida por Henrique Caldeira (“nos textos mais antigos”), ele troca a base textual e desloca o debate para uma forma tardia do texto. O problema não é “usar o massorético”, mas usá-lo como se fosse o ponto de partida quando o assunto é justamente a leitura mais antiga. Isso não é uma divergência de interpretação; é um erro de procedimento, ou uma inferência proposital. E quando o procedimento da análise falha desta forma, o argumento vira apologética vazia. A conclusão é preservada pela escolha da testemunha textual que melhor protege o dogma religioso.
A força da minha análise está em recolocar o debate no lugar certo: crítica textual primeiro, teologia depois se necessário. Por isso, a minha concordância com o historiador Henrique Caldeira se torna objetiva: se a discussão é sobre o que atesta a tradição mais antiga para Dt 32:8–9, então Qumran precisa entrar como peça central. E quando entra, o texto aponta para um cenário de múltiplos seres divinos/celestiais vinculados às nações, com Yahweh como divindade patronal de Israel, exatamente a leitura que a padronização massorética tende a suavizar ao preferir “filhos de Israel”.
O resultado da minha análise e consequente impugnação ao Lucas Lucas Banzoli , portanto, não é “opinião”: é um diagnóstico técnico sobre variantes, transmissão e efeitos teológicos. E é por isso que esse trecho se tornou um dos mais importantes para compreender como a Bíblia hebraica preserva, em certas camadas, ecos de um mundo divino plural, antes das sínteses tardias que consolidaram a linguagem monoteísta mais rígida.
Referências Bibliográficas
TOV, Emanuel. Textual Criticism of the Hebrew Bible. 3. ed. Minneapolis: Fortress Press, 2012.
ULRICH, Eugene. The Dead Sea Scrolls and the Origins of the Bible. Grand Rapids: Eerdmans, 1999.
SMITH, Mark S. The Origins of Biblical Monotheism: Israel’s Polytheistic Background and the Ugaritic Texts. Oxford: Oxford University Press, 2001.

Comentários
A análise apresentada pelo professor Carlos revela um compromisso consistente com as evidências históricas, evitando recorrer a apelos emocionais ou a interpretações que possam comprometer a veracidade dos fatos. Em contraste, observa-se que o colega Lucas adota uma postura dispersa e pouco sistemática, especialmente quando se trata de questões de natureza apologética. Sua tendência é justificar seletivamente aquilo que lhe convém, demonstrando uma falta de compromisso com o conhecimento crítico. Em vez de buscar fundamentação sólida, Lucas parece priorizar a reprodução acrítica de discursos já estabelecidos em determinados círculos religiosos, com o objetivo de satisfazer demandas emocionais e conquistar simpatizantes, em detrimento da construção de uma reflexão rigorosa e fundamentada.