
[23] Porque eu recebi do Senhor o que também vos ensinei: que o Senhor Jesus, na noite em que foi traído[entregue], tomou o pão; [24] E, tendo dado graças, o partiu e disse: Tomai, comei; isto é o meu corpo que é partido por vós; fazei isto em memória de mim. [25] Semelhantemente também, depois de cear, tomou o cálice, dizendo: Este cálice é o novo testamento no meu sangue; fazei isto, todas as vezes que beberdes, em memória de mim. [26] Porque todas as vezes que comerdes este pão e beberdes este cálice anunciais a morte do Senhor, até que venha. 1 Coríntios 11:23-26
De acordo com a fórmula da “Ceia Paulina”, a refeição comum tornou-se parte integrante da vida litúrgica da Igreja instituída por Paulo. A epístola aos coríntios refere-se a Ceia atribuindo-lhe um aspecto de refeição comunitária, e até mesmo observando culpabilidade aos participantes por usá-la como pretexto para comer demais [1Co 11:22-23]. Ao observamos cuidadosamente o rito e as observações ressaltadas pelo autor da Carta aos Coríntios percebemos apontamentos característicos das refeições comunitárias de Qumran.
O papel das refeições comunitárias de Qumran também está bem documentado e é fundamental para a organização da seita. Além disso, embora a repreensão a prática da gula nunca seja mencionada, as “refeições puras” da seita não são domínio de noviços, mas de plenos iniciados nos ensinamentos da ordem que entendem perfeitamente sua solenidade. Muito relevante é o que encontramos no pergaminho Regras da Comunidade (1QS 6:4-5) e seu apêndice, as Regras do Messias, onde de acordo com alguns estudiosos observamos a presença de um ou dois Messias de Qumran (Sacerdote/Davídico) que se manifesta para a comunhão em destaque. Os elementos pão e vinho presentes no coração da Última Ceia dos evangelhos e na Carta aos Coríntios seguem apresentados no rito a sequência litúrgica apresentada em 1QSa. Neste último lemos:
Pois [ele] abençoará a primeira porção do pão e do vinho, alcançando primeiro o pão. Depois disso, o Messias de Israel alcançará o pão. (1QSa 2:19-21)
O mais impressionante em 1QSa é a ordem cerimonial de comer primeiro o pão e depois beber o vinho. Será coincidência que Paulo segue a mesma ordem quando relata a ceia de Jesus e seus discípulos? Escrevendo possivelmente por volta de 55 dC, Paulo expressa o que era então o foco daquilo que foi reconhecido por alguns eruditos como as “festas de amor” cristãs [Jud 12]. Não surpreende que vejamos a fórmula da “Eucaristia Paulina” na narrativa da “Última Ceia” à semelhança da celebração essênia quando observamos a tentativa de associação do personagem Paulo aos mestres essênios descritos no livro de Atos, Manaém entre outros [Atos 13:1]. É possível que o desenvolvimento do sacramento como apresentado no Novo Testamento exigisse justificação prévia pela boca de Jesus, ou seja, que ele aplicasse a si mesmo de forma explícita os títulos messiânicos evocados nos escritos da comunidade essênia de Qumran.
Curiosamente, Paulo não diz aos coríntios que Ceia ocorre na véspera da Páscoa, mas apenas afirma que foi na noite em que Jesus foi traído [entregue]. Embora Paulo não explique exatamente como ele “recebeu de Senhor” esta tradição, ou seja, como isso lhe foi transmitido, podemos ver que ele efetivamente transformou a Última Refeição de Jesus no “banquete messiânico” de Qumran, com uma referência a “Nova Aliança”, termo específico da comunidade dos essênios atestado no Documento de Damasco (DC) e Regras da Comunidade (1QS), esta é a linguagem que vemos nos Evangelhos Sinópticos, deve-se destacar que DC e 1QS são datados entre os séculos I e II AEC.
Semelhante à “Regra Messiânica” os evangelhos seguem a mesma formula, o pão vem primeiro, seguido pelo vinho. O Jesus histórico poderia ter oferecido uma refeição pascal diferente daquela descrita na Bíblia, mas semelhante ao “banquete messiânico” descrito nos Manuscritos do Mar Morto, ou até a sua própria versão do mesmo. Outra correlação interessante entre os relatos evangélicos da Última Ceia e os Manuscritos do Mar Morto é a ordem de Jesus: “Entre na cidade, e um homem carregando um cântaro de água virá ao seu encontro” (Mt 26:18; Mc 14:13; Lc 22:10). Um homem carregando um jarro de água é um detalhe comum que seria esperado em um local com habitantes essênios devido as suas características oriundas da realização de ritos de purificação e a adoção do celibato por membros desta ordem, estas características dos essênios são atestadas nos escritos dos historiadores Flavio Josefo, Plínio, o Velho e o filósofo Fílon de Alexandria. As descobertas arqueológicas de Bargil Pixner sugerem que o local da Última Ceia foi no Bairro Essênio da antiga Jerusalém. Bargil Pixner, erudito, arqueólogo e monge alemão da Ordem de São Bento que também atuou como comentarista de publicações científicas dos Manuscritos do Mar Morto.
Na edição de Maio/Junho de 1997 do Biblical Archaeological Review, a maior revista de publicações arqueológicas do mundo, as descobertas arqueológicas de Bargil Pixner acerca da identificação de um bairro essênio em Jerusalém foram publicadas. As descobertas de Pixner trouxeram novos olhares para a vida de Jesus em seus últimos dias e atos, a exemplo da “Ultima Ceia”, que se transcorreram com grande probabilidade no bairro essênio de Jerusalém.
Referências Bibliográficas
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WEDDERBURN, Alexander J. M. (org.). Essays in honour of Alexander J. M. Wedderburn. London: T & T Clark, 2003. p. 221-249.

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