Serafins como Serpentes Aladas: Iconografia Egípcia e Religião Judaíta em Isaías 6

Serafins como Serpentes Aladas Iconografia Egípcia e Religião Judaíta em Isaías 6
Serafins como Serpentes Aladas Iconografia Egípcia e Religião Judaíta em Isaías 6

A visão do trono registrada em Isaías 6 pertence ao universo simbólico do antigo Oriente Próximo e costuma ser situada, em sua forma mais antiga, no contexto político e religioso de Judá no século VIII a.E.C., embora a identidade histórica do profeta e a extensão das redações posteriores permaneçam discutidas. O texto apresenta YHWH como soberano entronizado no templo, acompanhado por seres denominados śĕrāfîm: “cada um tinha seis asas; com duas cobria o rosto, com duas cobria os pés e com duas voava” (Is 6,2). A descrição não corresponde à imagem cristã tardia de anjos antropomórficos, mas encontra paralelos mais próximos nas criaturas híbridas que integravam a iconografia régia e templária levantina. Durante os séculos VIII e VII a.E.C., oficinas de Judá empregaram motivos de procedência egípcia, como o disco solar alado, o escaravelho e o uraeus — a cobra ereta associada à deusa Uadjit e à proteção da realeza faraônica. Essa circulação iconográfica constitui evidência material de intercâmbio cultural, mas não demonstra, por si mesma, dependência literária direta entre um objeto particular e Isaías 6.

As fontes primárias vinculam semanticamente os serafins às serpentes. Em Números, YHWH envia hannĕḥāšîm haśśĕrāfîm, “as serpentes ardentes”, e ordena: “Faze para ti um śārāf e coloca-o sobre uma haste” (Nm 21,6.8); Deuteronômio 8,15 também menciona “serpente, śārāf e escorpião”, enquanto Isaías 14,29 e 30,6 emprega a expressão śārāf mĕʿôfēf, “serpente ardente voadora”. Em Isaías 6,6, um desses seres transporta uma brasa do altar e toca os lábios do visionário, preservando a associação entre ardor, perigo e purificação. Outro testemunho literário é 2 Reis 18,4, segundo o qual Ezequias “despedaçou a serpente de bronze que Moisés fizera”, chamada Nehushtan, porque os israelitas lhe queimavam incenso. A documentação arqueológica inclui o selo de calcário avermelhado encontrado nas escavações da Praça do Muro Ocidental, em Jerusalém — achado n.º 71586, sala 4, locus 6160 — cuja gravação representa um uraeus de quatro asas. Selos hebraicos dos séculos VIII–VII a.E.C., alguns acompanhados por nomes judaítas, confirmam que a serpente alada integrava efetivamente o repertório visual de Judá.

A aproximação entre os serafins e os uraei egípcios baseia-se, portanto, na convergência entre vocabulário hebraico, função protetora e iconografia, não em uma identificação demonstrável em todos os detalhes. Keel e Uehlinger observam que o uraeus de duas asas geralmente protege um objeto, enquanto exemplares de quatro asas aparecem em selos judaítas envolvendo ou guardando o nome do proprietário. Isaías transforma esse repertório: seus seres possuem seis asas e, em vez de protegerem a divindade entronizada, cobrem o próprio rosto e corpo diante dela. A hipótese predominante entende essa alteração como uma adaptação judaíta de um símbolo régio egípcio, subordinado literariamente à soberania de YHWH. Outras interpretações relacionam os serafins aos querubins do templo ou consideram que o termo designava genericamente seres ígneos da corte divina. Também não se pode deduzir dos selos que Ezequias tenha rejeitado toda iconografia serpentina, nem concluir que a notícia de sua reforma seja inteiramente fictícia: a destruição do Nehushtan é uma afirmação da narrativa deuteronomista, cuja correspondência com um acontecimento histórico específico continua debatida.

A leitura histórico-crítica permite concluir que os serafins de Isaías 6 provavelmente foram concebidos como criaturas híbridas com características serpentinas, e não simplesmente como figuras humanas dotadas de asas. O sentido hebraico de śārāf, as serpentes ardentes de Números e Isaías e a presença material do uraeus alado em Judá tornam essa interpretação plausível e historicamente contextualizada. Entretanto, os dados não provam que o autor tenha contemplado determinado selo, que o Nehushtan possuísse asas ou que todos os elementos da visão procedam diretamente do Egito. A iconografia documenta a disponibilidade e a adaptação judaíta do motivo; a relação causal com Isaías 6 permanece uma reconstrução acadêmica. Do mesmo modo, nem a existência histórica do visionário descrito no livro nem a datação integral do capítulo podem ser estabelecidas exclusivamente por esses paralelos, devendo-se distinguir o cenário narrativo, os artefatos arqueológicos e as inferências modernas construídas a partir deles.

Referências Bibliográficas

ELLIGER, Karl; RUDOLPH, Wilhelm (ed.). Biblia Hebraica Stuttgartensia. 5. ed. Stuttgart: Deutsche Bibelgesellschaft, 1997.

AVIGAD, Nahman; SASS, Benjamin. Corpus of West Semitic Stamp Seals. Jerusalem: Israel Academy of Sciences and Humanities; Israel Exploration Society; Hebrew University, 1997.

KEEL, Othmar; UEHLINGER, Christoph. Gods, Goddesses, and Images of God in Ancient Israel. Tradução de Thomas H. Trapp. Minneapolis: Fortress Press, 1998.

ORNAN, Tallay. Member in the Entourage of Yahweh: A Uraeus Seal from the Western Wall Plaza Excavations, Jerusalem. ‘Atiqot, Jerusalém, v. 72, p. 15–20, 2012.

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