
O Monte Ṣafon (Zafon), identificado com o atual Jebel al-Aqra, na fronteira entre a Síria e a Turquia, ocupou posição central na religião do antigo Levante como a montanha sagrada do deus Baal. Nos textos ugaríticos, descobertos em Ras Shamra e datados da Idade do Bronze Tardia, essa montanha é descrita como a residência do deus da tempestade, onde se ergue seu palácio e de onde exerce domínio sobre as forças da natureza e sobre a assembleia divina. Sua imponência geográfica, frequentemente envolta por nuvens, contribuiu para que fosse concebida como um ponto de encontro entre o mundo celestial e o terrestre, tornando-se um dos mais importantes símbolos religiosos do Oriente Próximo Antigo.
A importância do Monte Ṣafon ultrapassou os limites da religião cananeia. Hurritas, hititas, fenícios, gregos e romanos preservaram, cada um à sua maneira, a memória dessa montanha como um espaço sagrado associado ao poder divino. Entre os hititas, o monte aparece em textos religiosos e tratados diplomáticos como testemunha das alianças estabelecidas entre reis, enquanto, durante o período romano, foi identificado com o culto de Zeus Cássios. Essa continuidade demonstra que Ṣafon permaneceu, durante muitos séculos, como um símbolo de autoridade cósmica e da presença dos deuses, revelando a permanência de antigas tradições religiosas em diferentes contextos culturais.
A literatura bíblica também preserva ecos desse imaginário. Em Isaías 14:13, o profeta utiliza a expressão “monte da assembleia, nas extremidades de Ṣafon”, evocando uma imagem amplamente conhecida no mundo semítico para representar a montanha da habitação divina. De modo semelhante, o Salmo 48 descreve o Monte Sião como localizado nas “extremidades do norte” (yarketê ṣāfôn), expressão que muitos estudiosos interpretam não apenas como uma referência geográfica, mas como uma apropriação consciente da linguagem tradicional associada ao monte sagrado de Baal. Nessa perspectiva, a teologia israelita ressignifica um símbolo religioso compartilhado pelo antigo Oriente Próximo para afirmar que a verdadeira morada do Deus de Israel não é Ṣafon, mas Sião.
Sob a perspectiva da história das religiões, esses paralelos não indicam dependência direta ou simples reprodução de mitos cananeus, mas refletem um processo de diálogo cultural característico das sociedades do Levante. A Bíblia Hebraica foi produzida em um ambiente onde imagens, conceitos e símbolos religiosos circulavam entre diferentes povos, sendo frequentemente reinterpretados para expressar novas convicções teológicas. O estudo do Monte Ṣafon, portanto, oferece uma importante chave para compreender como tradições compartilhadas foram adaptadas pelos autores bíblicos, permitindo uma leitura mais ampla das relações entre a religião de Israel e o contexto cultural do Antigo Oriente Próximo.
Referências Bibliográficas
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WYATT, Nicolas. Religious Texts from Ugarit. 2. ed. Sheffield: Sheffield Academic Press, 2002.

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