Nehushtan: a serpente de bronze de Moisés, a arqueologia e os paralelos do Antigo Oriente Próximo

Nehushtan - a serpente de bronze de Moisés, a arqueologia e os paralelos do Antigo Oriente Próximo
Nehushtan – a serpente de bronze de Moisés, a arqueologia e os paralelos do Antigo Oriente Próximo

A serpente de bronze, conhecida posteriormente como Nehushtan (2Rs 18:4), é um dos objetos mais intrigantes da tradição bíblica. Longe de surgir como um símbolo isolado, ela se insere no contexto religioso e cultural do Antigo Oriente Próximo, onde serpentes metálicas eram utilizadas em ambientes cultuais e frequentemente associadas à proteção, à cura e ao poder divino. A arqueologia tem demonstrado que esse tipo de representação já existia em Canaã séculos antes da consolidação da tradição israelita.

A cultura material fornece evidências importantes para essa discussão. No templo cananeu de Tel Mevorakh, por exemplo, foi encontrada uma serpente de bronze em contexto cultual, semelhante a outros exemplares descobertos em sítios como Timna, Hazor, Megido e Gezer. Esses achados revelam que a utilização de serpentes metálicas fazia parte do repertório religioso do Levante, reforçando a ideia de que o relato de Números 21 dialoga com tradições religiosas já conhecidas na região.

A literatura do Antigo Oriente Próximo também apresenta paralelos significativos. Textos ugaríticos, especialmente KTU 1.100 e KTU 1.107, relacionam o deus Horon a rituais de proteção contra picadas de serpente e neutralização de venenos. Da mesma forma, prescrições médico-mágicas acádicas seguem uma estrutura semelhante à encontrada em Números 21: diante da mordida de uma serpente, realiza-se um procedimento ritual que conduz à restauração da vida. Esses paralelos demonstram que a narrativa bíblica compartilha um horizonte cultural comum com outras civilizações do Antigo Oriente Próximo.

Outro aspecto relevante está no uso da palavra hebraica śārāf (“ardente”), empregada para designar as serpentes que atacam os israelitas em Números 21. A mesma raiz aparece em Isaías 6 para designar os serafins, indicando que o termo originalmente estava associado a seres ardentes e, em determinados contextos, a criaturas serpentiformes. Dessa forma, o estudo de Nehushtan evidencia como arqueologia, filologia e literatura do Antigo Oriente Próximo contribuem para uma compreensão mais ampla do texto bíblico e de seu contexto histórico.

Referências Bibliográficas

DEL OLMO LETE, Gregorio. Il and Ḥrn: Divine Power vs. Magic. A New Look at KTU 1.100. Aula Orientalis, v. 31, n. 1, 2013.

HUROWITZ, Victor Avigdor. Healing and Hissing Snakes: Listening to Numbers 21:4–9. Journal of Hebrew Scriptures, 2006.

STERN, Ephraim. Excavations at Tel Mevorakh (1973–1976). Part Two: The Bronze Age. Jerusalem: Hebrew University of Jerusalem, 1984.

SARACINO, Pablo. The Origin and Evolution of the Saraph Symbol. Antiguo Oriente, v. 15, 2017.

WILLIAMS, G. Reconsidering the Nehushtan as a Magical Healing Device within the Geographical, Cultural and Magico-Religious Context of the Ancient Near East. Religions, v. 14, n. 11, 2023.

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