Fílon de Alexandria e a cristologia do Logos no Novo Testamento

Colagem Épica do Logos Antigo
Colagem Épica do Logos Antigo

Muito antes da redação do Evangelho de João, Fílon de Alexandria já descrevia o Logos (λόγος) utilizando títulos posteriormente associados a Cristo. Em De Confusione Linguarum 146, Fílon fala daquele que Deus denomina seu “primogênito” (πρωτόγονος) e que recebe o título de Logos; em De Agricultura 51, o Logos aparece como o “primogênito Filho” que governa como representante do grande Rei; e em De Somniis I.215, Fílon identifica o sumo sacerdote cósmico como o “divino Logos, seu Filho primogênito”. Este conjunto encontra correspondências particularmente fortes em Colossenses 1:15, onde Cristo é “a imagem do Deus invisível, o primogênito de toda a criação”, e em Hebreus 1:6, onde Cristo é chamado simplesmente de “o Primogênito”. A associação entre Logos e imagem de Deus também é explícita em Fílon: De Specialibus Legibus I.81 declara: “a imagem de Deus é o Logos, pelo qual todo o mundo foi feito”; compare-se diretamente com Colossenses 1:15-16, “imagem do Deus invisível […] porque nele foram criadas todas as coisas”, 2 Coríntios 4:4, “Cristo, que é a imagem de Deus”, e João 1:3, “todas as coisas foram feitas por intermédio dele”.

A função cosmogônica do Logos fornece outro conjunto particularmente significativo de paralelos. Em De Opificio Mundi 24-25, Fílon concebe o mundo inteligível como paradigma do mundo sensível e vincula esse arquétipo ao Logos divino; em De Specialibus Legibus I.81 afirma diretamente que o mundo foi feito mediante o Logos; e em De Migratione Abrahami 6 Fílon emprega a linguagem do Logos como instrumento mediante o qual Deus estrutura sua obra. O paralelo neotestamentário é imediato: João 1:1-3 — “no princípio era o Logos […] todas as coisas foram feitas por intermédio dele”; 1 Coríntios 8:6 — “um só Senhor, Jesus Cristo, por meio de quem são todas as coisas”; Colossenses 1:16-17 — “nele foram criadas todas as coisas […] tudo foi criado por meio dele […] e nele todas as coisas subsistem”; e Hebreus 1:2-3, onde Deus cria os séculos por intermédio do Filho, que sustenta todas as coisas. A correspondência se estende ao conceito de arquétipo/imagem: Fílon chama o Logos de imagem divina e paradigma inteligível da criação (De Opificio Mundi 25; Legum Allegoriae III.96; De Specialibus Legibus I.81), enquanto Hebreus 1:3 chama o Filho de “resplendor da glória” e “expressão exata” do ser de Deus, e Colossenses 1:15 o denomina “imagem do Deus invisível”.

Ainda mais específico é o papel do Logos como mediador, sumo sacerdote, intercessor, revelador e anjo de Deus. Em Quis Rerum Divinarum Heres Sit 205-206, Fílon afirma que Deus colocou seu “Logos arcanjélico e antiquíssimo” entre Criador e criatura; o Logos permanece como “suplicante” em favor da raça mortal e “embaixador” do soberano para seus súditos, ocupando precisamente a posição intermediária entre Deus incriado e a criação. Compare-se 1 Timóteo 2:5, “há um só Deus e um só mediador entre Deus e os homens, Cristo Jesus”, Hebreus 7:25, Cristo que “vive sempre para interceder por eles”, Hebreus 8:6, Cristo como mediador de superior aliança, e Hebreus 9:15, “mediador da nova aliança”. Em De Somniis I.239, Fílon identifica a manifestação angélica de Deus com “sua imagem, seu Logos angélico”; em I.241, esse Logos aparece como ministro de Deus que ordena e sustenta o universo. Compare-se João 1:18, no qual o Filho torna conhecido o Deus que ninguém jamais viu; João 14:9, “quem me viu, viu o Pai”; Colossenses 1:15, “imagem do Deus invisível”; e Hebreus 1:3, o Filho como manifestação da realidade divina. Mais impressionante ainda é De Somniis I.215: existem dois templos de Deus, o cosmos e a alma racional; no templo cósmico, o sumo sacerdote é o Logos divino, seu Filho primogênito. A convergência com a cristologia sacerdotal de Hebreus 4:14; 7:24-27; 8:1-6; 9:11-15 é evidente.

Outros paralelos ampliam consideravelmente o quadro. Em De Confusione Linguarum 62-63 e 146-147, o Logos aparece associado ao Nome de Deus, ao homem celestial e ao primogênito; compare-se Filipenses 2:9-11, onde Deus concede a Cristo “o nome acima de todo nome”, e Apocalipse 19:12-13, onde o Cristo possui um nome transcendente e é chamado “Logos de Deus”. Em De Fuga et Inventione 108-112, o Logos é apresentado como o principal entre os poderes divinos, aquele mediante quem o homem encontra refúgio; compare-se Hebreus 6:18-20, onde aqueles que “buscamos refúgio” encontram esperança naquele que entrou por nós no santuário celestial. Em De Legum Allegoria III.175-177, Fílon interpreta o maná como alimento divino relacionado ao Logos; compare-se João 6:32-35, 48-51, no qual Cristo é o verdadeiro pão descido do céu. Em De Plantatione 18-20 e De Somniis I.75, o Logos e a sabedoria divina aparecem associados à fonte espiritual que vivifica e nutre; compare-se João 4:10-14; 7:37-39. Finalmente, a terminologia de luz aplicada à realidade divina inteligível e ao Logos em Fílon (De Somniis I.75; De Abrahamo 156; De Cherubim 97) encontra sua formulação cristológica mais explícita em João 1:4-9, “a vida era a luz dos homens […] a verdadeira luz que ilumina todo homem”, e João 8:12, “Eu sou a luz do mundo”. Assim, a comparação direta das fontes revela um complexo lexical e teológico anterior ao cristianismo joanino no qual o Logos é imagem de Deus, primogênito, Filho, agente da criação, sustentador cósmico, revelador do Deus invisível, arcanjo, sumo sacerdote, intercessor e mediador entre o Deus transcendente e a criação — categorias que reaparecem concentradas na cristologia do Novo Testamento.

Referências Bibliográficas

RUNIA, David T. Philo in Early Christian Literature: A Survey. Assen: Van Gorcum; Minneapolis: Fortress Press, 1993.

WILLIAMSON, Ronald. Philo and the Epistle to the Hebrews. Leiden: Brill, 1970.

BORGEN, Peder. Bread from Heaven: An Exegetical Study of the Concept of Manna in the Gospel of John and the Writings of Philo. Leiden: E. J. Brill, 1965.

DODD, C. H. The Interpretation of the Fourth Gospel. Cambridge: Cambridge University Press, 1953.

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