
Descoberto em 1961, um pequeno texto ugarítico foi traduzido e denominado por alguns estudiosos como “Festa das Bebidas de El” ou “A Embriaguez de El”. Esse texto difere dos demais textos ugaríticos por sua representação pouco lisonjeira do deus El.
O texto nos lembra que a religião cananeia era mais complexa e multifacetada do que sugerem os mitos mais longos. Ele possui duas partes, ambas abordando o problema da intoxicação. A primeira parte é uma curta narrativa mítica da bebedeira de El e da embriaguez resultante, que leva duas deusas a empreenderem uma busca por ingredientes para a cura. Separada da primeira parte por uma linha do escriba, a segunda consiste em uma pequena receita para ressaca.
O mito se baseia em um cenário tradicional de bebida, que em ugarítico é chamado de mrzḥ. Em Ugarit, o mrzḥ era uma associação de homens da elite que, de acordo com um texto legal, poderia se reunir na casa de uma de suas figuras principais. Evidências comparativas sugerem que também poderia ocorrer em uma sala de santuário ou templo. Amós 6:7 mostra a associação da bebida com essa instituição, em hebraico marzeacḥ, atestada até o período greco-romano.
O texto começa com El fazendo os preparativos para seu banquete, do qual as divindades participam. Os preparativos se destacam por envolverem caça, isto é, animais selvagens capturados para a ocasião. Esse tipo de alimento não consta das listas de oferendas feitas aos deuses nos textos rituais de Ugarit; aqui, porém, ressoa com a descrição posterior das deusas indo caçar os ingredientes para curar o estado de embriaguez de El.
Em seguida, o deus Lua aparece em uma descrição incomum, sendo comparado a um cachorro. Divindades associadas a ele, entre as quais são nomeadas Astarte e Anat, fornecem-lhe carne, mas o porteiro da casa de El os repreende por isso. Embora a comparação da Lua com um cachorro possa se relacionar ao “pelo do cachorro” mencionado na prescrição final, não está claro como interpretar esse símile, nem os demais detalhes de sua descrição. O significado dos pormenores relativos à sua alimentação também permanece incerto. Uma interpretação sugere que o mrzḥ seria uma festa funerária e que a Lua é representada dessa forma porque se acreditava que o deus lunar estivesse no submundo durante o dia. Contudo, os funerais provavelmente eram apenas uma das várias funções do mrzḥ, e o papel da Lua no submundo carece de evidências. Outra hipótese propõe que o retrato aparentemente negativo da Lua reflita uma polêmica contra sua adoração em Ugarit, mas essa leitura encontra pouco respaldo nos textos ugaríticos. A Lua é uma divindade astral bem conhecida, assim como Astarte; Anat também pode ter traços astrais, embora isso seja menos claro. Algum aspecto da natureza astral da Lua pode estar por trás dessa passagem enigmática.
O texto então volta-se para a condição de El. O porteiro o repreende enquanto ele está sentado em seu mrzḥ. El bebe até ficar “muito bêbado”, conforme as imagens descritas nas linhas 21–22, e precisa de duas divindades para ajudá-lo a voltar para casa. Elas desempenham aqui um dos papéis clássicos atribuídos a um filho em relação ao pai. No início de Aqhat, Danel afirma que, entre os muitos deveres de seu filho, está “segurar sua mão quando ele está bêbado, apoiá-lo quando ele está cheio de vinho”. No caminho, El depara-se com uma visão incomum. A figura de Habayu, descrita como “senhor de chifres e cauda”, é desconhecida nos demais textos ugaríticos. A maioria dos estudiosos entende que El se suja com seus próprios excrementos e urina, embora tenha sido recentemente sugerido que é Habayu quem suja o El embriagado. Prescrições médicas posteriores utilizam esterco, o que pode estar relacionado à receita apresentada ao final do texto. A identificação mais precisa de Habayu permanece incerta; ele pode ser Resheph, o único deus semítico ocidental representado com cauda, cuja contraparte em Emar, Nergal, é chamada de “senhor dos chifres”. Resheph era associado à destruição, como se observa na cena de abertura de Kirta, bem como à morte e ao submundo. A imagem de uma figura com chifres e cauda pode ter servido de precursor para representações muito posteriores do diabo. O mito conclui com Anat e Astarte saindo para caçar ingredientes que auxiliem na cura da ressaca de El. Nesse ponto, o texto é interrompido, retomando apenas quando as duas deusas retornam, aparentemente com os ingredientes em mãos. Em outras passagens, essas deusas são associadas à caça; em Aqhat, por exemplo, Anat deseja o arco do herói para si.
As linhas finais apresentam a receita para curar a ressaca. A primeira parte prescreve pelo de cachorro, que deve ser colocado sobre a cabeça do sofredor. O termo pqq, na segunda parte da receita, pode ser um termo técnico, talvez o nome de uma planta, ou possivelmente esterco. Seja qual for sua natureza, deve ser misturado com azeite e depois aplicado ou ingerido, talvez para acalmar o estômago do embriagado ou induzir o vômito. A referência ao azeite como “fresco” sugere o final do verão ou o início do outono como período em que o mito se situa, o que também se harmoniza com a menção ao “vinho novo”, produzido com uvas colhidas nessa estação.
Alguns ingredientes da receita correspondem a elementos da narrativa, e a embriaguez constitui o tema central de ambas as partes. No mito, são Astarte e Anat que saem à caça dos ingredientes, e a receita menciona justamente tais itens. O pelo de cachorro dialoga com a descrição da Lua como cachorro. O pqq, caso se refira a estrume, relaciona-se ao excremento mencionado na narrativa. Nessas correspondências, o mito descreve aquilo que a cura prescreve. É possível que, como em outros textos médicos do antigo Oriente Próximo, o relato mítico devesse ser recitado juntamente com a prescrição.
Texto: A embriaguez de EL. Linhas 15 a 21.
El estava sentado em sua festa com bebidas. (15)
El bebeu vinho até ficar satisfeito, vinho novo até ficar bêbado.
El foi para sua casa, ele alcançou sua corte;
Thukamuna e Shunama o ajudaram.
Então Habayu o confrontou,
Senhor dos chifres e da cauda; ele o sujou com sua porcaria e mijo. (20)
El desabou como um cadáver, El era como aqueles que descem para o submundo.
Texto adaptado da obra: COOGAN, Michael D.; SMITH, Mark S. Stories from Ancient Canaan. 2. ed. Louisville: Westminster John Knox Press, 2012.

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