
A busca arqueológica pela Arca de Noé na região do Monte Ararat é um fenômeno historiográfico e midiático que se repete ciclicamente há décadas, impulsionado por leituras literais e viés de confirmação. O relato bíblico do Flood integra uma longa tradição Pan-Oriental Próximo-Oriental: precedendo o texto bíblico, a literatura mesopotâmica registra o mito da inundação universal na Tabuleta XI da Epopeia de Gilgamesh (século XII a.C.), na qual o herói Utnapishtim constrói uma embarcação cúbica selada com betume, e no Poema de Atrahasis (século XVIII a.C.), onde a divindade Enki ordena a destruição da humanidade e a preservação da vida. No Egito antigo, embora não haja uma narrativa estruturada de dilúvio universal e restauração náutica, o conceito de destruição da humanidade por ordem divina aparece no Livro da Vaca Sagrada (onde Hathor/Sekhmet é enviada por Rá para punir a rebelião dos homens). Sob a ótica da exegese histórico-crítica, o Gênesis não aponta para um pico isolado, mas para uma extensão territorial genérica designada em hebraico como harê ‘Ărārāṭ (Gênesis 8:4) — o reino antigo de Urartu —, o que deu margem a tradições concorrentes na Antiguidade. A própria literatura helenística registra esse interesse: no século III a.C., o sacerdote babilônio Beroso, em sua obra Babyloniaka (preservada por Flávio Josefo em Antiquitates Judaicae 1.93), relatava que fragmentos da embarcação de Xisutros (o Noé babilônio) ainda podiam ser vistos nas montanhas da Armênia, de onde a população local raspava o betume para confecção de amuletos.
A estrutura que atualmente reaparece nos holofotes é a formação de Durupinar, no leste da Turquia, uma feição em formato sinclinal de 157 metros cuja geometria evoca a silhueta de um casco náutico. Contudo, as alegações de que a área abriga uma estrutura antropogênica foram exaustivamente refutadas pela geofísica rigorosa ainda na década de 1980. Sob a liderança do geofísico John Baumgardner e do geólogo Salih Bayraktutan, levantamentos de radar de penetração no solo (GPR) e perfurações diretas de amostragem efetuadas em 1988 demonstraram a completa ausência de madeira fossilizada ou material orgânico associado a uma embarcação. Os relatórios técnicos e as análises microscópicas subsequentes — como as conduzidas pelo geólogo Lawrence Collins em 1996 — confirmaram que os supostos “encaixes metálicos” e “estruturas de madeira” eram, na verdade, formações naturais de limonita (óxido de ferro) e minerais vulcânicos desgastados sobre rocha basáltica e argila nativas.
As recentes alegações veiculadas em 2026 pelo grupo privado Noah’s Ark Scans sustentam-se em sensacionalismo publicitário e dados de radar de ressonância forçada (desenvolvido por Baktar Research) que carecem de validação por pares (peer-review). Tecnologicamente, a premissa apresentada por entusiastas de que o equipamento é capaz de “filtrar e desligar sinais geológicos” para revelar apenas estruturas humanas é fisicamente inviável e diverge das avaliações do Institute for Defense Analyses e do Departamento de Transportes dos EUA, que demonstraram que tais sistemas dependem de calibragem prévia em objetos conhecidos e apresentam margens de detecção equivalentes ao acaso quando não parametrizados. Ademais, a tentativa de associar o achado a supostas “pedras de âncora” (drogue stones) perfuradas foi desmascarada pela arqueologia regional: os monólitos exibidos em campanhas de arrecadação pertencem na verdade ao complexo megalítico de Carahunge (na Armênia) ou consistem em rochas vulcânicas locais sem qualquer relação com embarcações mesopotâmicas.
Diante do registro geológico e arqueológico de campo, a formação de Durupinar classifica-se categoricamente como uma feição natural — um relevo estrutural resultante do deslizamento de blocos calcários sobre fluxos de lama e dobras erosivas. A reincidência de “descobertas irrefutáveis” veiculadas por comunicados de imprensa atende predominantemente a interesses de financiamento coletivo e retórica apologética, contornando o crivo de revistas científicas sérias. Para a compreensão acadêmica da narrativa do Dilúvio, faz-se indispensável o abandono de pseudopesquisas e a correta contextualização dos textos bíblicos em relação às fontes do Antigo Oriente Próximo, como o Poema de Atrahasis e a Epopeia de Gilgamesh, em vez da projeção de metanarrativas sobre formações rochosas comuns.
Referências Bibliográficas
Collins, L. G., & Fasold, D. (1996): “Bogus Noah’s Ark from Turkey Exposed as a Common Geologic Structure” — Journal of Geoscience Education, v. 44, n. 4.
Baumgardner, J., & Bayraktutan, M. S. (1988): “Geophysical Survey and Core Drilling at the Durupinar Site” — Relatório Los Alamos / Atatürk University.

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